sábado, 19 de maio de 2012

PRÓXIMA ESTAÇÃO








Na próxima estação desembarcarei.
Sem passagem de volta,
Sem remorso, sem bagagem;
Só a fadiga da viagem.
Me hospedarei na casa amada.
Lá reunirei meus contos,
Meus desencantos.
Plantarei meus pés cansados,
Na calçada do futuro.
Levarei meus olhos pra
Tomar banho de cachoeira.
Aí, abrirei o peito a escorrer,
O que de resto me invade a alma.
Relembrarei meus sonhos,
Sonhados no impossível,
Desidratados e petrificados,
No passado que não me lembro.
Escreverei tudo que eu quiser,
Divagarei, rascunharei a mente.
Me internarei na rede a balançar,
Quem sabe a inspiração me toma a veia
E eu me torno poeta,
Antes de enrugar os ossos!!!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O FOGO DA ILHA

Conta a história que um pescador e sua rede, pescavam rio acima numa noite escura, quando de repente na outra margem, surgiu uma grande bola de fogo. Muito grande para ser um lampião e também não tinha forma de fogueira. O pescador ficou intrigado mas continuou jogando sua rede. Ainda não pescara quase nada, e mais agora com a claridade, só muita sorte, pensou ele enquanto puxava a rede cheia de gravetos. Nunca tinha visto coisa parecida. Aquele fogo sobre a água, sem ninguém por perto, lhe causou estranheza. Ficou parado por alguns minutos observando mais detidamente aquela bola reluzente e, como ela não se movia ele foi de forma sutil, jogando a rede em sua direção. Percebeu então que, na medida em que se aproximava, a bola se afastava. Agora parecia um pescador incomodado com sua presença. Mas o rio é de todos, pensou ele mais despreocupado. Parou por mais alguns minutos na esperança que o fogo se afastasse. Qual nada, o fogo mantinha a mesma distância de quando lhe aparecera. O pescador, cansado de jogar sua rede em vão, resolveu pescar de volta rio abaixo até o pé de gameleira onde deixara sua roupa. Enquanto descia o rio, percebeu que o fogo lhe seguia sempre à mesma distância.
Era um homem religioso, temente a Deus. Lembrou da história que seu pai lhe contara. Nela um canoeiro e sua canoa desaparecera naquelas águas misteriosamente. Nesse momento prometeu a si mesmo: rezaria um Pai Nosso e uma Ave Maria quando saísse da água. Subiu a ribanceira e já vestido, ajoelhou-se sobre a rede e começou a rezar olhando fixo para a bola de fogo, que diminuía à medida que a reza era rezada, até desaparecer por completo.
No caminho para casa emparelhou com seu compadre que vinha da novena e, como nunca lhe guardara segredos, contou-lhe do fogo, que lhe seguira rio acima, rio abaixo até a velha gameleira. De imediato, seu compadre relembrou com desdém uma historia antiga de uma fogueira que caminhava sobre a água e afugentava os pescadores desaparecendo com suas roupas. Dizia a lenda que o fogo surgia do meio das carnaubeiras como se morasse na ilha; ou que nascia no salgado e por isso era também conhecido como fogo do salgado; ou ainda, que também é chamado de fogo do cunhaú, por nascer no salgado do cunhaú.
Depois em casa antes de pegar no sono pensou na possibilidade de o fogo ter sido uma mensagem das pessoas que desaparecem nas águas do rio. Ficou um tempo sem pescar. Nem comentou do fogo com sua mulher. Com certeza iria contar para os meninos que provavelmente não iriam querer lhe acompanhar na pescaria quando mais crescidos, pois ainda eram pequenos para a fundura do rio.
Quando resolveu retomar a pescaria, convidou seu compadre, para fazer prova no caso de o fogo lhe aparecer novamente. Lá foram os dois rio acima atirando suas redes para todos os lados; nada do fogo. Não queria acreditar naquela aparição. Poderia ter sido mesmo um pescador brincalhão querendo lhe pregar uma peça. Nem deveria ter contado ao seu compadre. Era mais uma dessas histórias que nascem de um mal entendido que se espalha virando lenda.
Seu compadre blasfemou do fogo por toda pescaria naquela noite. Era história que os mais velhos contavam para assustar os filhos, dizia ele. Seu avô lhe contara que vira o fogo queimar sua roupa no galho da gameleira e depois a roupa estava lá, no mesmo lugar. O pescador, apesar de destemido, jamais duvidava do desconhecido. Ouviu calado a zombaria do compadre. Se fosse realmente o fogo da lenda, porque não apareceu aos dois? Porque o escolhera? Seria a alma do canoeiro querendo lhe passar algum recado? Pedir-lhe alguma reza? Doravante, sempre que viesse pescar ou passasse pelo rio, lhe rezaria um Pai Nosso e uma Ave Maria. Não lhe custava nada.
Passados alguns dias, certa noite voltou ao rio como sempre fazia. A noite estava escura, lua nova de breu. A água morna do calor do sol garantia uma pescaria livre de calafrios, causados pelo vento sobre a pele molhada. Deixara sua roupa no lugar de sempre no galho da gameleira e jogava sua rede despreocupado, quando de repente a tocha surge na sua frente. Nunca lhe tinha visto tão de perto, e cada vez mais perto, até ficar encandeado com seu brilho reluzente. Não teve medo. O fogo não lhe faria mal, no íntimo tinha certeza disto. Aquele fogo queria lhe dizer alguma coisa, só precisava entender sua mensagem. Fechou os olhos e permaneceu imóvel. Era naquele momento, o mais vulnerável dos homens. Foi então que se lembrou da reza. Postou as mãos sobre o peito e rezou. Quando terminou, abriu os olhos e a escuridão era total. A tocha havia chegado perto demais. Aprendera a não brincar com fogo. Desta vez, apesar da intimidade sugerida pelo fogo, não ia contar nada sobre o episódio. Passaria outro tempo sem pescar, assim evitaria outro possível encontro com ele. Meses depois, numa tarde de folga do roçado, o pescador remendava sua rede estendida no terreiro, sentado sobre o tornozelo; a mulher se aproxima por trás, põe as mãos nos seus ombros, lhe faz um cafuné nos cabelos enquanto olha suas mãos calejadas; não costumava lhe fazer esses dengos à luz do dia, principalmente no terreiro. O pescador estranhou os afagos da mulher e pensou: essa alma também está querendo reza.
-O que foi? Perguntou ele, carinhosamente rústico.
-Sonhei que o compadre morria assado na fogueira, junto com os peixes e você olhava sem nada dizer, desembuchou a mulher, sem rodeios.
O pescador sabia que seu compadre não acreditava em sonho, quanto mais na história do fogo. Não ia contar o sonho da mulher.
Como prometera a si mesmo, toda boca de noite, o pescador ia até a velha gameleira e rezava um Pai Nosso e uma Ave Maria em nome das almas presas nas águas do rio. Numa noite, rezava como de costume quando ouviu passos, era seu compadre que, após lhe acompanhar na reza, lhe contou de um sonho que tivera. Um homem lhe aparecia, sem rosto, todo molhado, pingando como se tivesse acabado de sair do rio; o homem lhe rogava que lançasse sua rede ao rio naquela noite, na confrontura da gameleira. Lá ele iria ter uma grande surpresa. E contou mais. Sua mulher também tivera o mesmo sonho, e depois ele ainda queimava na fogueira. O pescador então, revelou o sonho de sua mulher, o que fez seu compadre, lançar a rede para o fogo.
O local indicado, não era bom para peixe, o pescador sabia disso; era a travessia da gameleira, que dava para a estrada do outro lado. Ficou ali matutando até que lhe bateu um aperto no peito ao pensar que aquele homem, todo molhado e sem rosto, poderia ser o fogo da ilha atraindo seu compadre para o fundo do rio. Não disse nada. A essa altura de nada adiantaria tentar dissuadi-lo. Seu compadre desceu a ribanceira da gameleira com sua rede sobre os ombros, enquanto o pescador assistia a tudo sentado no barranco, afinal o sonho não era seu. Quando sumiu no ocaso o último clarão do sol, a tocha apareceu enfurecida como um raio, fazendo piruetas. O fogo fez um circulo em torno do homem, que perplexo deixava cair sua rede sobre os pés.
Da gameleira o pescador olhava encantado para aquela coisa inacreditável. Agora, estranhamente, já sentia afeto pelo fogo. Não se dispôs a entrar na água naquele momento. Apenas contemplava deslumbrado aquele grande círculo colorido. Salvaria seu compadre daquela enroscada. Descobrira uma maneira de afugentar o fogo. Era só rezar e ele desaparecia. Começou sua reza e, dessa vez, o fogo não lhe tomou conhecimento. E seu compadre ali, estático, no meio do círculo, sem lastimar. Hipnotizado. O círculo foi se fechando em torno do homem, até retomar sua forma lendária de uma bola. O homem e o fogo viraram uma coisa só, que se apagava lentamente enquanto afundava. Com a escuridão completa, o pescador tirou sua roupa, pendurou na gameleira e desceu o barranco na direção do homem, que na certa ainda estava paralisado com o susto que tomara. Gritou seu nome até cansar, só o silêncio do rio.
Seu compadre e sua rede desapareceram misteriosamente; tal qual o velho canoeiro da outra lenda. Agora ficava claro o sonho. Era a vingança do fogo em paga do descaso e do desdém. Não se faz zombaria com as coisas do outro mundo.
Naquela noite o homem não voltou para casa. O pescador, apesar de tudo, sempre nutriu uma profunda e inexplicável admiração pelo fogo. E até o fim da sua vida, rezou penitente para as almas dos que se foram, engolidos pelas águas.
Abraçada com a lenda, a velha gameleira de galhos tortos, virou lugar de preces e oferendas; parece guardar todos os segredos do rio, além da roupa rasgada dos pescadores.
Até hoje permanece o mistério do fogo da ilha, do salgado, do cunhaú.....
Pela alma do seu compadre, o pescador jurou de joelhos diante da velha gameleira, que jamais jogaria sua rede naquele rio, depois do pôr do sol!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

VIDA DE PEDRA

Pedra miúda tinhosa
Fui pedra já de menino
Carregada de caçamba
Despejada no caminho
Arrancada do terreiro
Sem tempo de criar limo
Feito pedra de rebolo
Rolando sobre o destino
II
Deixei o alto de pedras
Pra bater em retirada
Uma banda ficou presa
A outra foi arrancada
No meu terreiro de pedras
Minh’alma ficou guardada
Metade de mim é pedra
Metade leva pedrada
III
Rolei pra cima e pra baixo
Rolei pra lá e pra cá
Rolei no frio da praia
Rolei pro frio passar
Rolei nos pés da capina
Rolei no sol a queimar
Rolei na lama da chuva
Rolei no jogo de bar
IV
Joguei pedra na guerrilha
Fui pedra de atirar
Me cobri de carrapichos
No serviço militar
Tive as unhas encravadas
Nas botinas de marchar
Acordei na enxurrada
Com o rio a me levar
V
Já me fiz em pedregulhos
Já me vi a soluçar
Esbarrei em muitas pedras
Só mesmo por esbarrar
Algumas me cativaram
Me pediram pra ficar
Como pedra não escuta
Não me pus a escutar
VI
Gravei o rumo do vento
Na certeza de voltar
Fiz o mapa do caminho
Costurei no patuá
Quem me viu desmilinguido
Não perde por esperar
Levo pedras de presente
Muita história pra contar
O terreiro me espera
Lá eu quero vadiar!!!

domingo, 29 de janeiro de 2012

FOGO AMIGO


“Quero te dizer
Velho Gurguri
Que o rio sem ti
Não tem alegria
A água que subia
Só pra te beijar
Agora vai passar
E não vai te ver!”


E logo eu, a te queimar no fim
Se já chorei por ti a todo pranto
Dono de ti, quem te adora tanto
Te ver em cinzas, fez cinza de mim
II
Te vi ali, a derreter em chamas
A escutar os versos que te fiz
Como a se arder, ardendo de feliz
Na labareda enquanto te derramas
III
O fogo amigo que te fez fogueira
Me doeu a noite, morna sem luar
Os olhos da Dona pôs-se a marejar
Olhos de menina, vida passageira
IV
Se te queimei foi pra te proteger
Do sol ardente que te consumia
Da chuva fina e da noite fria
Do abandono posto a me doer
V
Te li poema à luz de velas
Solenemente como ritual
Iluminados por um castiçal
Simbolicamente como sentinela
VI
Queimado, findo, ardendo de sede
Tua cinza leve se espalhou no vento
Como por encanto, coisa de momento
Invadiu a casa, beijou as paredes
VII
Do que te restou, joguei no rio
Tua cinza navega em liberdade
No meu peito és rio de saudade
Tomara não padeças calafrio!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

40 DIAS NO PARAÍSO

Tirei uns quarenta dias
Pra sumir na capoeira
Comecei a bebedeira
Logo no dia seguinte
Amigos pra mais de vinte
Contentes com a surpresa
Me buscou em Fortaleza
Um amigo de primeira
Provocamos tremedeira
Nas garrafas da cidade
É ruma de amizade
Que todo dia me chama
Pra pescaria na lama
No rio da Manuela
No açude, na pinguela
Na Barrinha, no Preá
Na Croa Grande do Mar
Na terra do Jenipapo
Ou no Buraco do Sapo
Na baixa do Zacaria
Na fogueira da Bibia
Ou na Lagoa dos Bode
O Bagre sempre que pode
Me leva pra Macajuba
Pensando que me derruba
Com meia dúzia de cana
Logo cedo é caravana
O telefone tocando
O povo me convidando
Vambora queimar o dente
Tomara que eu agüente
E o fígado não se queixe
Bora pro caldo de peixe
Na lagoa do Bobó
Pra depois tirar o pó
La no Alto da Colina
Ainda tem a menina
O beijo na madrugada
Os carinhos de carrada
Cuidados que nem mereço
A todos eu agradeço
Pelo gesto de grandeza
A ruma de gentileza
Que estragaram comigo
Me despeço comovido
Um abraço do amigo
Numa rede em Fortaleza!

domingo, 30 de outubro de 2011

O MENINO DE ANINGAS

Retratado no poema
Um garoto sonhador
O menino de Aningas
Muito cedo já voou
Tempo quente de fogueira
Sua terra fustigou
O jardim da sua casa
Folha seca devorou
Viajou pro fim do mundo
Numa onda de calor

Esgotada toda sorte
Abalada toda fé
Uma reza pra Francisco
Uma prece pra José
Promessa pro Pade Ciço
Pro Assis do Canindé
O sol ardendo de fogo
O rio, água no pé

Embarcou na tempestade
Levado de currupio
A estrada sinuosa
De poeira lhe cobriu
O vento nos seus cabelos
O medo fazendo frio
O cheiro de gasolina
Até hoje não saiu

O coração de menino
Batia descompensado
O pensamento no nada
O caminhão embalado
Espremido na mudança
Qual utensílio jogado
A Mulher sempre calada
Com seu vestido surrado

Adormeceu enfadado
Amontoado ao léu
Acordou no alarido
Na calçada do quartel
A rede de travesseiro
Telhado da cor do céu
Meninos extraviados
Perdidos no agranel

Inocência de criança
Arrancada na raiz
Sua sorte foi lançada
Sua vida por um triz
A lembrança do terreiro
A meninice feliz
Até hoje inda se pega
Ruminando cicatriz

Era o trem do pesadelo
Sem rumo sem direção
Sua sina que rodava
No pneu do caminhão
Uma nuvem de poeira
No lugar do coração
Era tudo de fumaça
Era o trem da ilusão

Viu o gume do machado
Viu a cobra se queimar
Viu a casa pegar fogo
Sem água de apagar
Os meninos com sarampo
As meninas a rezar
O homem fazendo planos
A mulher a costurar

A Mulher amargurada
Não aprendera chorar
Entupida de queixumes
Peito seco de rezar
Olhos cinza de tristeza
Na porteira de voltar
Centopéia de meninos
Mergulhados no azar

O escurinho da casa
Foi vitimado de praga
Menina por um fiapo
Lá se foi a gota d’água
Não nascera retirante
Não carecia de saga
Arrebatou suas crias
Esborrotada de mágoa

A Mulher de tão serena
Não cultuava lamento
Hoje nos olha de cima
Anda solta pelo vento
Aparece vez em quando
Nos olhos do seu rebento
Mudou-se da nossa casa
Pra morar no pensamento

Sugamos seu peito largo
A coragem de fartura
Sua saia de abrigo
O silêncio de ternura
Centopéia vive hoje
Sem emenda sem rasura
Calafetados que somos
Imunes a rachadura
Fomos trancados por dentro
E Ela é a fechadura!!!

sábado, 15 de outubro de 2011

ANTONIO TOMAZ


Era um homem com escudo
Com estrela no chapéu
Patente de Coronel
Decorado de metais
Me pôs no bolso detrás
Me levou pra sua casa
Me deu bico, me deu asa
Me soltou na ventania
Mas o vento que batia
Não batia como vento
Era seu ensinamento
Me preparando pra vida
Na aula de Ordem Unida
Emprego Policial
Minha formação moral
Foi sendo constituída
Essa figura querida
De caráter luminoso
Me fez um homem ditoso
A lhe dever a metade
Da mão que fiz amizade
Do bolso que fiz abrigo
Meu compadre, meu amigo
Meu tio, meu Coronel
A lembrança do quartel
Me chega doer o peito
Meu coração no estreito
Te agradece por tudo!!!