domingo, 11 de agosto de 2019

MARIA & JOSÉ




             
Maria não dá bom dia
Não escuta quem apela
A porta da casa dela
Tem urtiga no mourão
É onça na contra-mão
Cuspindo brutalidade
Não gosta de amizade
Repudia gentileza
Mas a sua “buniteza”
Entope carroceria
             II
Um dia topei Maria
Com topete de mulher
“Malmente rastava os pé”
Como quem tá com azia
Lhe perguntei como ia
Só podia ir a pé
Me chamou de “caburé”
Na maior antipatia
Minha mãe já me dizia
Não cutuca jacaré
            III
Assim é, Maria José
Doçura de carrapicho
Arisca que nem um bicho
Se alguém se aproxima
Sua mãe já lhe ensina
Os “pirigo” da idade
Não aceita caridade
Nem recado nem bilhete
Finura de alfinete
Opinião de catita
             IV
A Maria era bonita
Um defeito não se via
Mocinha de sacristia
Só da igreja pra casa
Reimosa mais que a brasa
Que nem bico de chaleira
Eu levei na brincadeira
Sua ira de menina
Metade da minha sina
A Maria carregava
               V
Maria se transformava
Bonita que só o diacho
Fria que nem um riacho
Nas coisas do coração
Eu lhe botava atenção
Todo domingo na missa
Parecia uma noviça
Uma filha de Maria
Minhas perna se tremia
Quando espiava pra ela
             VI
Eu, comia na tigela
Ela, da roça também
Eu, não tinha muitos bem
Duas cabeça de gado
Tinha cavalo celado
Com arreio de metal
Tinha mais dois animal
Rematado no leilão
Um carneiro valentão
E uma porca maiada      
            VII
Maria era desejada
Por todos da redondeza
Parecia uma princesa
Nas quatro festa do ano
E José fazendo plano
Sonhando com sua mão
Uma rosa em botão
Abrindo pro infinito
Seu brinquedo favorito
Era o banho de lagoa
           VIII
Sabemos que tempo voa
Na vida de todo mundo
Maria por um segundo
Parece desabrochar
Já retém o seu olhar
Quando é observada
Já não nada descuidada
Como constante fazia
Como minha mãe dizia
Já tava de fogo aceso
             IX
Maria já dá o peso
Já suspira na janela
Preciso falar com ela
Sobre as minha intenção
Logo vem um gavião
Deitar olho na menina
Mamãe diz que nóis combina
Que dá pra fazer um par
Mais pra poder combinar
Ela precisa saber
            X
Esqueceu os afazer
Roçado não via Zé
Apiruando a Mazé
Aonde a menina ia
A paixão lhe consumia
Já não ia trabalhar
A roça por capinar
Amanheça e anoiteça
Não tirava da cabeça
A imagem de Maria
             XI
Maria bem que sabia
Que andava perseguida
Toda vinda toda ida
Dava com olho de Zé
Essas coisa de mulher
Que vê e faz que não viu
Mas no fundo já sentiu
O coração palpitar
A noite deu de sonhar
Com referida pessoa
             XII                              
Ele mora na Coroa
Ela mora no Vintém
Meio dia ela vem
Na garupa do seu pai
É a hora quêle vai
Do roçado pra lagoa
É sua hora mais boa
Quando se cruza com ela
Só falta cair da cela
Quando mira seu olhar
            XIII
Fuxico foram contar
De uma briga passada
Uma cerca derrubada
Desavença de vizinho
Por conta dum bacurinho
Foi parar no Promotor
Essa briga separou
Os Pinheiro dos Machado
Ele foi prejudicado
Por coisa que nunca fez
             XIV
Foi briga pra mais de mês
O pai dele e o pai dela
Foi arame foi cancela
Derrubados pelo chão
Uma grande confusão
Briga pra vuar os caco
Tocaram fogo em barraco
Emboscaram de tocaia
Foi um rabo de arraia
Não foi coisa de se vê
             XV
Zé Maria sem saber
Do bendito bafafá
Precisa desintrigar
O pai dela do seu pai
No mesmo dia ele vai
Na casa do seu cunhado
Que é alfabetizado
“Pra mode” lhe ajudar               
Pra poder se desatar
O grande nó que se deu
            XVI
Seu cunhado escreveu
Uma carta de perdão
Pedido de remissão
Pra casa do ofendido
Depois de escurecido
Enfiou pela janela
Caiu bem no quarto dela
Que achou quando “barria”
Ela também não sabia
Da intriga do seu pai
            XVII
Dia vem e dia vai
Um dia veio resposta
Também debaixo da porta
Seu pai o destinatário
Dizia o adversário
Não ter mágoa nem rancor
Seu pai se admirou
Do chamego do vizinho
Mas foi aberto o caminho
Foi derrubado o acêro  
            XVIII
Zé que era dos Pinheiro
E Maria dos Machado
Agora desintrigado
Bebia no mesmo pote
A Maria nos capote
O Zé tirando crueira
Dá com ela na peneira
Com as mão a se roçar
Pra questão cicatrizar
“Ajuntaro” as farinhada
            XIX
O Zé dava uma boiada
Pela menina Maria
Ele já não conseguia
Ficar sem os olhos dela
Para ele e para ela
Era coisa decidida
Só havia uma saída
Fizeram combinação
Comer do mesmo pirão
Pro resto da suas vida
             XX
O Zé, com a repartida
Que lhe tocou da farinha
Juntou a porca que tinha
Pras festa de fim de ano
Comprou um corte de pano
E mais um brinco de ouro
Uma tamanca de couro
De presente pra menina
Carregou na brilhantina
Que escorria na testa
              XXI
Chegou o dia da festa
Foram todos pra novena
Convidou sua pequena
Pra tomar um aluá
Pois tinha que lhe falar
Daquele corte de pano
Foi aí seu desengano
Uma facada no peito
Maria com muito jeito
Foi dizendo mesmo assim: 
             XXII
Ô Zé, se fosse por mim
Até casar eu queria
Eu lhe tenho simpatia
Só não quero caritó
Mais agora deu um nó
Nas combinança da gente
Diz que tem um pretendente
Lá das banda de Sobral
Dono de carnaubal
Que me viu pelo retrato
            XXIII
Maria não faça trato
Nem pela barba do santo
Nem pelo divino manto
Do Divino Pai Eterno
Prefiro ir pro inferno
Andar sem rumo no mundo
Me jogar num poço fundo
Deixar minha alma presa
Do que viver de tristeza
De coração trespassado
               XXIV                                              
No domingo retrasado
O meu pai “raiô” comigo
Mãe me botou de castigo
Diz que tô muito saída
Disse que fui prometida
Pra quando for de maior
Enquanto for de menor
A gente vai namorando
Inda falta quatro ano
Pra mode vim me buscar
            XXV
Tomara o velho gagá
Morra bem antes do dia
Que dê uma frente fria
Lá onde esse traste mora
Praga que tudo devora
Mate seu carnaubal
Que tudo vire mingau
Na vida do papangu
E uma praga de urubu
Devore sua carniça
           XXVI
Maria sem dá notícia
Se mandou pra Capital
Talvez passou em Sobral
Na companhia dos pais
O desgosto foi de mais
No peito de Zé Maria
Pois não veio a frente fria
Sua praga não pegou
Inda viu o seu amor
Saindo por entre os dedo
           XXVII     
José morrendo de medo
Quase doido de ciúme
Parecia um vagalume
Não dormia nem comia
Matutava noite e dia
Na espera do seu bem
Será que Maria vem
Ou fica pra lá de vez?
Não, depois do que ela fez
Lá na pedra do rochedo
            XXVIII
Já voltaram com segredo
Maria já me evita
Até voltou mais bonita
Com o cabelo frisado
Os peito mais volumado
Parece fruta madura
Por fora uma formosura
Por dentro já não garanto
Da conta do meu encanto
Quebrou cinquenta por cento
           XXIX
Uma ira de momento
Feriu o seu coração
José perdeu a razão
Abalado de ciúme
Maria não sai a lume
A espera lhe castiga
Zé não passa da urtiga
Que habita no mourão
Nunca foi no seu portão
Quanto mais um casamento
             XXX
O tempo passava lento
Pra agonia de Zé
Um dia viu um chofer
Andar perdido no mato
Num carro quatro por quatro
Procurando a casa dela
Escorou-se na cancela
Pra não cair fulminado
Era coisa de noivado
Voava seu sabiá
           XXXI
Só sei que pra encurtar
O velho desceu do carro
Com escarro de catarro
E cachimbo fedorento
Maria por um momento
Achou que fosse Fiscal
Do Imposto Federal
Querendo tirar dinheiro
Largou o véi no terreiro
Se trancou na camarinha
           XXXII
Maria inda não tinha
Conhecido o pretendente
Quando viu aquela gente
Não desconfiou de nada
Quando foi apresentada
Ingúiô no pensamento
Esse sujeito nojento
Não passa da minha sala
Quanto mais fazer a mala
Pra viver de amargura
          XXXIII
Seu pai lhe fez uma jura
Lhe fazer prisioneira
Castigo pra vida inteira
Da vergonha que passou
A Maria nem ligou
Aceitou resignada
Mil vezes ser castigada
A viver desiludida
Desencantada da vida
Contando carnaubeira
           XXXIV
Um amor pra vida inteira
Era o sonho de José
Sua reza, sua fé
Nunca foram abalada
Sua mãe, desintrigada
Visitou Dona Zefina
Especulou da menina
De quanto tempo não via
Voltou que não se cabia
Trazendo boa notícia
           XXXV
A Maria com malícia
Usando o sexto sentido
Mandou bilhete escondido
Endereçado pra Zé:
No dia de São José
Me faça uma serenata
E me leve pra Regata
Lá na Praia do Preá
Deixe a onda me levar
Pra depois me socorrer
          XXXVI
Zé Maria ao receber
Açucarado bilhete
Contratou o clarinête
Do Tião da Boemia
Da meia noite pro dia
Roubaria sua amada
A intriga tava armada
Isso não acaba bem
Era o povo do Vintém
Contra o povo da Corôa
         XXXVII
Numa noite de garoa
A serenata comeu
Sua mãe reconheceu
No buraco da janela
O ladrão da filha dela
No pé de jabuticaba
A janela destrancada
A filha num pé e noutro
Depois do cabresto solto
É água de morro abaixo
          XXXVIII
O velho falando baixo
Chamou a sua mulher
Mandou fazer um café
Servir umas cajuína
Mandou chamar a menina
Abriu a porta da sala
Mandou fazer sua mala
E abraçou a Maria
Este é o último dia
Do castigo que lhe dei
          XXXIX
Ali, na forma da lei
Lhe entregou a Maria
O José não se cabia
De tanta felicidade
Agradeceu a bondade
Do Sr. Bento Machado
No seu cavalo celado
Subiu Maria nos braço
Depois partiu pro abraço
Pra festa de São José
             XL
A enchente da maré
Com toda força do mundo
Levou Maria pro fundo
Sem dá tempo de gritar
José não sabe nadar
Pra mode lhe socorrer
Zé já tava pra morrer
Quando “vêi” uma jangada
Com Maria engasgada
Da água que engoliu
            XLI
Maria com muito frio
Tremia desconsolada
Queria ser resgatada
Como conta no cordel
Nos braços do menestrel
O seu amor, o seu Rei
Não assim, no aperrei
De carona na jangada
A barriga cheia dágua
Em plena lua de mel
            XLII
Quase fui parar no céu
Disse Maria a José
Veja as coisa como é
No primeiro passear
Vi a onda me levar
Como leva uma semente
Se não fosse aquela gente
Voltando da pescaria
A onda me devolvia
Toda comida de peixe
           XLIII
Nunca mais você me deixe
Passar de “água no pé”
Milagre de São José
Lhe salvou da viuvez
Todo ano, neste mês
Vou pagar uma promessa
De trazer uma remessa
De fulô de manacá
Jogar nas onda do mar
Em forma de oferenda            
            XLIV
A Maria é minha prenda
Eu sô José, dos Pinheiro
Passei o cordel inteiro
Fingindo que não sabia
A sua caligrafia
Na pedra do ribeirão
Desenho de coração
O nome dela e o meu
Depois ainda escreveu
Meu coração machucado
             XLV
Sou Maria, dos Machado
Não sô de derretimento
Ali naquele momento
Estava fragilizada
A janela entramelada
Pois estava de castigo
Tu, combinava comigo
Tu me fazia as vontade
Era a minha liberdade
O adeus à palmatória
            XLVI
Aqui termina a história
De Maria e de José
Ela de pedra na mão
Ele de bicho no pé
O casamento se deu
Na festa de São José
José amola a enxada
Maria faz o café
Só sei que ainda resmunga
Na hora dos cafuné!!!



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

CATINGUEIRO SONHADOR





                  










Um dia, muito cansado
De tanto sol apanhado
Chapéu de palha rasgado
Cochilando recostado
Num tronco velho queimado
Que dá sombra no roçado
Eu já de quengo lesado
Num sonho de abestado
Sonhei que tinha criado
Todas as coisas do mundo
               II
Comecei pelo segundo
Que bate no coração
Contei os dedo da mão
E já chegava janeiro
Foi só criar o ponteiro
Por o tempo pra correr
Comecei envelhecer
No primeiro tic-tac
Escrevi no almanaque
O nascimento da vida
               III
A sorte andava perdida
Disse que ia comigo
Dormi nas paia do trigo                 
No macio dos pendão
Era a juba do leão
Que dormia de priguiça
Assim tu num ganha missa
Repara por onde pisa
Se a sorte não avisa
Não devia estar com ela
             IV
Suado até as canela
Com um calor de matar
Resolvi então criar
Uma lagoa salgada
Com areia nas berada
Pra lama não atolar
Botei o nome de mar
Ficou de boa fundura
Dei um pouco de largura
Pra ninguém atravessar
                V
Criei o vento de ar
Pra não esbarrar em nada
Fiz a serra elevada
Pras água num invadir
Fiz a coruja dormir
Somente durante o dia
Pimenta, que não ardia
Botei logo pra arder
Fiz o rato pra roer
Com o dente da cotia
              VI
Criei a noite e o dia
Mandei o vento soprar
Pra de noite me banhar
Botei as água no rio
Uma noite tive frio
Escavaquei um vulcão
Botei em erupção
E fiz a minha fogueira
Como a cinza fez pueira
Eu apaguei com o pé    
              VII
Fiquei olhando a maré
Pensando no que faltava
O que não tinha eu criava
O que tinha eu não mexia
Já quase no fim do dia
Num toque de inspiração
Lembrando do meu pião
Sentado em cima da serra
Eu arredondei a terra
Botei ela pra rodar
             VIII
Fiz a chuva derramar
Para lavar os pecados
Dos pobres desavisados
Que abusam do destino
Criei o redemoinho
Pra varrer o escondido
Criei o sexto sentido
E coloquei na mulher
Na hora dos cafuné
Já sabe por onde andei
              IX
Os passarim eu criei
Botei cantiga no bico
Inda fiz o maçarico
Com canela de socó
Pus amargo no jiló
Dei casco pra tartaruga
Botei o salto na pulga
Pra não morrer de surpresa
Fiz a sombra na defesa
Contra o ataque do sol
            X
Enrolei o caracol
Dei casa pro aruá
Minhoca foi reclamar
Da vida no atoleiro
Ainda botei um cheiro
Nas viria do cassaco
Safadeza no macaco
Depois me arrependi
Só presta pra se inxirir
Por nada já se debulha
              XI
Fiz o furo da agulha
Pra linha poder passar
Fiz a roda circular
No redondo da esfera
Fiz o tempo e a espera
Fiz a onda e o rochedo
A coragem e o medo
Fiz o olho e o olhar
A moça pra se casar
O homem que não se queixe
              XII
Botei espinha no peixe
Botei cheiro no jasmim
Esporão no anikim
Botei catinga no bode
Budejado e o bigode
Lhe fiz o pai do chiqueiro
Fiz o olho bem ligeiro
Botei o cisco no vento
Inventei o pensamento
Pra dar tempo de pensar
             XIII
Fiz a guerra dos preá
Pois fiquei inconformado
Por que o rato com rabo
E o coitado não tem
Fiz os rato de refém
Soltei os preá pra riba
Preá e rato na briga
Foi coisa dismantelada
O grunido e a dentada
Só via rabo avuar
            XIV
Mandei a água molhar
Criei o nó e a corda
Fiz o fundo fiz a borda
Botei a folha no galho
Fiz a rota e o atalho
Fiz o rumo e o caminho
A vontade e o destino
Fiz o cabo e o machado
Fiz a cerca e o cercado
Fiz a vara e a canoa
             XV
Botei cheiro na safrôa
Semente no jirimum
Agaia no gaiamum
Fiz a teima e a pirraça
Botei cheiro na fumaça
Pus coceira no capim
Tornei o mundo sem fim
Inventei a arapuca
Botei a mão na cumbuca
E nada me aconteceu
           XVI
Tirei a fé do ateu
Fiz o cravo e a berruga
Condenei a sanguessuga
A viver de parasita
Fiz a cabra e a cabrita
Botei preto no carvão
Criei as pedra do chão
Pintei as mata de verde
Botei balanço na rede
Fiz a chuva e a garoa
            XVII
Sonhando horas à toa
Com a enxada do lado
Roncando feito um capado
Sem se dar conta da vida
Mais uma tarde perdida
E o roçado no mato
Coberto de carrapato
E o bocó pelo mundo
Dormindo sono profundo
Sem plantar uma espiga
              XVIII
Encontrei uma formiga
Com a folha na cacunda
Bem maior que sua bunda
Já banhada de suor
Por que não corta menor
A folha não vai fugir
Assim tu vai entupir
A boca do formigueiro
Vai janeiro e vem janeiro
Só paro quando morrer
              XIX
Fiz a pinga de beber
Que no meu sonho não tinha
Dei escama pra sardinha
Botei listra no coró
Dei canto pro curió
Adocei a rapadura
Botei bolha na fervura
Bem na hora de ferver
Mandei o amanhecer
Abrir o clarão da barra
             XX
O grilo e a cigarra
Que não sabiam cantar
Eu mandei estagiar
Na casa do assum preto
Depois que pegaro jeito
Coitado do meu ouvido
Não aguento o tinido
No intirisso da noite
É cantiga de açoite
Num ouvido operado
              XXI
Deixei o céu azulado
Que antes não tinha cor
Tive um caso de amor
Com uma linda donzela
Eu me encontrava com ela
Em um castelo encantado
Eu com roupa de roçado
Ela coberta de cheiro
Me chamava de guerreiro
Seu valente caçador
            XXII
Pra ser meu descobridor
Tens que buscar uma senha
No fim do ôco das brenha
Depois do malassombrado
Se abrir o cadeado
E tu me puseres nua
Esta noite serei tua
Com todo meu esplendor
Corre meu gladiador
Trás a minha liberdade              
            XXIII
Pensando na caridade
Que eu podia fazer
Não que fosse por prazer
Era sua liberdade
Quem faria essa maldade
Por cadeado na dama
Nisso me veio uma chama
Sem meio de se apagar
O resto não vou contar
Pra não quebrar o encanto
           XXIV
Caminhei os quatro canto
Pelos pontos cardeais
Bajulei os animais
Os que morde e os que voa
Botei mangue na camboa
Dei veneno pra serpente
Por ser um bicho valente
Tirei as perna e os braço
Diminui o seu passo
Lhe botei o rastejado
           XXV
Encontrei monstros sagrados
Caminhei na ventania
Vi toda mitologia
E o grito da sua ira
Princesas tocando lira
Piscando olho pra mim
E o sonho sem ter fim
E eu fazendo cagada
Mexendo na bicharada
Bulindo com a natureza       
           XXVI
Me tornei a realeza
Eu era o dono de tudo
Um dia dava cascudo
Na cabeça do leão
No outro era biliscão
Na barriga da serpente
Parecia adolescente
Podia butar buneco
Pintar todos os caneco
Sem limite pra reinar
            XXVII
Deixei a terra e o mar
Fui passear no espaço
Aliviar o cansaço
Da minha vida mesquinha
Fui cair numa casinha
De porta muito miúda
Meu senhor que me acuda
Só pode ser o inferno
Meu divino pai eterno
Entrei na casa do cão
           XXVIII
Rastejando pelo chão
Encontrei coisa ruim
Mostrou a língua pra mim
Inda me fez um mungango
Lhe transformei num calango
Lhe mandei um discunjuro
Eu que sou um homem puro
Lhe fiz o sinal da cruz
Tenho Deus que me conduz
Diante do capiroto       
          XXIX
Fui expulso num arrôto
Com meu rosário na mão
Parei num grande portão
Feito de favo de mel
Só podia ser o céu
Eu ali admirado
Quando bateu o cajado
O porteiro de plantão
Mandei um escorpião
Na terra pra te buscar
            XXX
Sem moral pra reclamar
Da minha morte cruel
Acompanhei o bedel
Por um corredor azul
Quando vi andava nu
Do jeito que vim ao mundo
Caí num sono profundo
Que não me lembro de nada
Acordei de madrugada
Rodeado de fulô
            XXXI
Pensei... agora danou
Acho que to num velório
Quando vi um oratório
Com todo mundo a chorar
Consegui me levantar
Soprei, apaguei a vela
O povo de sentinela
Dizendo que foi o vento
Ali, naquele momento
Pensei que tinha morrido
           XXXII
Lhe pedi arrependido
Pra ser mandado pra terra
O seu contrato encerra
Dentro de trinta segundo
A sua estada no mundo
Encontra-se terminada
Sua roça foi brocada
Pelo seu substituto
A mulher quebrou o luto
Entregou a rapadura
             XXXIII
Me cobri de amargura
Faltei pouco pra morrer
Comecei a me tremer
Deu suadeira nos pé
A notícia da mulher
Embaralhou meu sentido
Como ultimo pedido
Quero um anjo dicretado
Que corra lá no roçado
Pra mode me acordar           
        XXXIV
O anjo correu pra lá
Voltou voando nas asa
Visitou a minha casa
Comigo já falecido
Relatou o ocorrido
Com prova documental
Na nota cartorial
Vi o meu obituário
No caixão do funerário
A minha fotografia     
           XXXV          
Já quase me refazia
Abandonado da sorte
Me deparei com a morte
Que não fez conta de mim
Perguntei-lhe mesmo assim
Quem havia lhe criado
Disse, vim dum enforcado
Lá do cumeço do mundo
Da alma do moribundo
Que se desprega da vida
              XXXVI
Pensando na minha ida
Lembrei da minha idade
Oh morte, tenha a bondade
Aumente o tempo da minha
Pensei que você não vinha
Disse ela com desdém
Já rezaram teu amém
Eu era o escorpião
Esmagaiado no chão
Debaixo do teu traseiro
         XXXVII
Num pulo de catingueiro
Pulei o muro do céu
Me melei todo de mel
Dos pés até a barriga
Um batalhão de formiga
Correndo pra me lamber
Acordei a me arder
Com a bunda ferroada
Com uma dor disgraçada
Do veneno do ferrão
          XXXVIII
Disparei num carreirão
O tanto que dava o pé
Só pensava na mulher
Com a sua viuvez
Um sonho pra mais de mês
Cheguei na ponta dos pés
Espiei no através
Do buraco da tramela
Vi Maria nas panela
Com a roupa que eu deixei    
          XXXIX
Sem graça me aproximei
A mulher a se abanar
Tô quase pra dismaiar
Nesse calor infernal
Coitado dos animal
Que tem o sol de abrigo
Ai, eu pensei comigo
Sabe de nada inocente
Soubesse da boca quente
Tava vestida de luto
            XL           
Só cabeça de roceiro
Bulir no céu e na terra
Organizar uma guerra
Pelo rabo do preá
Se cheguei a blasfemar
Minhas humilde desculpa
Sonhar não foi minha culpa
Foi o sono que bateu
Um beijo para quem leu
Meu sonho Discompensado!