sábado, 6 de novembro de 2010

PAPAGAIOS!!!


Papagaio indignado
Do ronco da moto-serra
Dos olhos cheios de terra
Do seu ninho derrubado
Dos filhotes amassados
Na queda da sua casa
Só lhe resta bater asas
Enquanto não vêm as chamas
Logo-logo o Amazonas
Vira filete de rio
Areia come navio
A mata vira deserto
O homem que acha certo
Destruir a Natureza
Corta rio faz represa
Pra gerar força motriz
Resulta da cicatriz
Cidade vira lagoa
Desaloja quem não voa
Afoga quem se arrasta
É fortuna que se gasta
Pra fazer o que não presta
Enquanto nossa Floresta
É vendida, leiloada
Espremida, recuada
Disputada por grileiros
Respira por aparelhos
Consolada pelo rio
Que respira por um fio
Entupido pelo lixo
E quem fala pelos bichos
Nosso nobre papagaio
Sufocado num balaio
Entregue ao desvario
Pernas e asas atadas
É vendido nas estradas
Como símbolo do Brasil!!!

domingo, 24 de outubro de 2010

DOCE ABSTRATO


Tu, que moras num vão estreito
Na cova funda do meu peito
Só mesmo a ti remeto flores
Morro de amores, ressuscito e,
Volto do infinito pra te ver

Tu que desces do meu sonho bem assim
Enquanto te proponho amor sem fim
Dá de ombros se fingindo resolvida
Vagueia de sapatos minha vida
E sai pra rua sem me conhecer

Faltam folhas pra contar no calendário
Sobram marcas de procura no diário
Te sonhei outro dia Madalena
Figurante esquecida no cinema
Tive pena de mim por te querer

Só me perdi, vivi a ti buscar
Pois que tu és um rio a desaguar
Por te querer sobrevivi abalos
Já me doei me consumi em calos
E tu nem aí pra merecer

Tu és rugas indeléveis de ternura
Retrato caro que foge da moldura
Minha Dama sorrateira como o vento
Te guardo cicatriz no pensamento
Pena que tu não existas pra saber!!!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DITO POPULAR

Diz o dito popular
Com toda sabedoria
Que o tempo não espera
Que a morte vem um dia
Que a vida não tem pressa
Que a pressa pretendia
II
Cada coisa no seu tempo
Como um dia atrás do outro
Amor se paga com beijo
Do outro lado do rosto
III
Terás um dia de muito
Comendo de grão em grão
Se pensares duas vezes
Na força da união
IV
De moeda em moeda
Minha fortuna se fez
Prato frio de vingança
No enterro da Inês
V
Antes tarde do que nunca
Quem espera sempre ganha
Jacaré nada de costas
No reduto da piranha
VI
Nem tudo que brilha é ouro
Já dizia o garimpeiro
Só se conhece o amigo
Se pedir algum dinheiro
VII
O gato vai na caçada
Quando o homem não tem cão
Andorinha operária
Numa noite de verão
VIII
Não conte com a galinha
Ela pode não ter ovo
As aparências enganam
Sabedoria do povo
IX
Quem dá risada primeiro
Sabe que do chão não passa
Quem sorrir por derradeiro
Vai cair achando graça
X
Água mole quando bate
Pedra dura desconfia
A esmola é roubada
O santo que não sabia
XI
Quem tem boca não atira
No telhado do vizinho
Vai à Roma de carona
Na pedra que vem caindo
XII
Mais vale gato escaldado
Que pombo na água fria
Um passarinho na mão
Era tudo que eu queria
XIII
Quem faz a cama se deita
Não há bem que não acabe
Quem semeia ventania
Vai morrer na tempestade
XIV
Papagaio é famoso
Por causa do periquito
A boiada se espalha
Pela falta de um grito
XV
Pior do que vara curta
É levar a cutucada
Até a mosca prefere
Onça de boca fechada
XVI
O gato na noite escura
Não revela com quem anda
Parece terra de cego
Quem tem um olho que manda
XVII
Se vive desprevenido
Não adianta chorar
O leite foi derramado
Difícil remediar
XVIII
Macaco caiu do galho
Dormindo que nem preguiça
Cachorro foi enforcado
Amarrado na lingüiça
XIX
Na casa que tem milagre
O santo não mora nela
Milagre só no vizinho
Qual tempero de panela
XX
Quem desdenha da desgraça
Compra a bobagem que quer
O ferreiro faz em casa
O espeto que quiser

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O PERFUME


Queria ter, a força do perfume
Que indelével, atravessa o tempo
Não pra ser sentido a todo momento
Mas retrato antigo, de causar ciúme
II
Cheiro que me traga me sopra no vento
Me volta no tempo me faz um desejo
Troca seu perfume por aquele beijo
Que já fez morada no meu pensamento
III
Leva meus queixumes, minh’alma sentida
Meu tempo vivido na indiferença
Sopra de poeira solidão imensa
Cobre de aroma todas as feridas
IV
Marcas tatuadas me sobram do peito
Já se fez rosário tanta cicatriz
Retratos guardados, um bem de raiz
Bem que não se quis, carinho desfeito
V
Se me pego em sonhos, recordo sentido
Amores rompidos pela vida afora
Vento que não sabe, não me leve embora
O perfume guardado do amor vivido!!!

terça-feira, 1 de junho de 2010

GIGANTE FERIDO


A saudade me invade
Me entorpece o coração
Pedaço da minha infância
Me escorre pela mão
Na haste do galamar
O barulho do carvão
Os meninos a rodar
Até se embriagar
Espatifados no chão
II
Com ingresso de castanha
Você podia rodar
Caçula da Dona Rosa
Era dono do lugar
Quem passava para a missa
Na volta passava lá
Na minha doce lembrança
Do meu tempo de criança
O tempo não vai passar
III
Um transeunte vadio
Botou fogo no seu leito
Se lhe soubesse a história
Lhe cobria de respeito
Ver seu tronco derretido
Derrete também meu peito
Me causa muito sofrer
Olhar pro rio e ver
Seu tronco daquele jeito
IV
Acaso o amigo rio
Estivesse de enchente
Não lhe teria deixado
Perecer no fogo ardente
Lhe sobrou o esqueleto
Um buraco de serpente
Um farrapo em frangalhos
Com meia dúzia de galhos
A judiar minha mente
V
Não existe Casa Velha
Sem o vento sem o rio
Sem a figura frondosa
Hoje um toco vazio
A mesma dor que sentiste
Meu peito também sentiu
O vento quando passar
Há de soprar devagar
Pra não morreres de frio
VI
Meu velho gurgurizeiro
Como dói lhe ver assim
O seu corpo retalhado
Torna retalhos em mim
Quando passo de visita
Sinto uma coisa ruim
Relembro o que foi outrora
Me bate no peito agora
Uma saudade sem fim!!!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

BOTEI TUDO NUM BALAIO


Começou de brincadeira
Um rabisco no papel
VELHO ZECA generoso
Me chamou de Bachareu
Atirei pra todo lado
Comecei no PÉ QUEBRADO
Termino neste Cordel
II
Enderecei uma CARTA
Pra MULHER DA MINHA CASA
Meu BEM-QUERER ficou triste
Meu peito ficou em brasa
Pois na BRIGA DE CASAL
Todo mundo passa mal
Só complica, só atrasa
III
Tomei CHUVA no roçado
Subi no TAMARINEIRO
Cavalguei no ARCO-ÍRIS
UM AMOR DE JANGADEIRO
Esbarrei nos OLHOS DELA
Tendo como sentinela
MEU AMIGO CAJUEIRO
IV
Tive um AMOR DESCUIDADO
Bastardo, FORA DA LEI
Amei de TODAS AS FORMAS
Na PROCURA me achei
A ESPERA calejada
A ESPERANÇA SURRADA
MEMÓRIA que deletei
V
Cochilei na CASA VELHA
Nos arredores da CRUZ
Vi o BRILHO DAS ESTRELAS
Um SENTIMENTO de luz
Não tive MEDO DA NOITE
Pois o VENTO de açoite
É o sopro de Jesus
VI
Fiz um SONETO PRA DOR
Com muita SIMPLICIDADE
Fiz SONETO PRA FADIGA
Pra DONA FELICIDADE
Quis fazer uma canção
Que fale do coração
Mas ficou pela METADE
VII
Fui de TREM pra MINHA TERRA
Feito um AMOR DE RAIZ
Me lembrei do ESTRUPICIO
Da Maria Infeliz
A MUSA do cabaré
Só ela sabe O QUE É
A vida de meretriz
VIII
Já tive AMORES DISTANTES
AMOR MADURO sereno
BELEZA se fez OCULTA
DESEJO virou veneno
Apeei do MEU CAVALO
O PÉ jazia de calo
Sapato ficou pequeno
IX
Lembrei do PRINCIPIANTE
Do ROCEIRO ENCABULADO
Do CIGANO forasteiro
Do POETA injuriado
Do FEIRANTE de mau gosto
Que nem a MULHER SEM ROSTO
Ficaria do seu lado
X
Retratei a FARINHADA
No RETRATO que sabia
Fiz versos pra NAZARÉ
Amiga de VALENTIA
Que não pregava o olho
Na tramela do ferrolho
Quando o magrelo sumia
XI
Falei como PAPAGAIO
Tenho PRESSA DE CHEGAR
Vou fazer a PESCARIA
Se O TREM não atrasar
Escrevi pra DONA TONIA
Pra fazer muita pamonha
No inverno eu chego lá
XII
ZERO HORA vou embora
Tenho UM SONHO pra sonhar
O RELÓGIO não ESPERA
MESMO QUE vá devagar
Desço na PRÓXIMA ESTAÇÃO
BOTÃO DE ROSA na mão
Pra quem for me esperar!!!

terça-feira, 25 de maio de 2010

CARTA PRA DONA TONIA


Dona Tonia, saudações!!

Desculpe-me o longo tempo sem notícias, nem fui na sua despedida, é que ando meio esquecido, sem contar, o tempo que anda agora muito mais ligeiro, a ponto de me tornar avô assim sem mais nem menos. Imagina, aquele menino de Aningas, aliás, a sua filha do meio, está escrevendo poesias. A mais velha já é Escritora, e das boas, o menino mais velho, se interessa por música, até fez uma canção que lhe retrata muito bem. A outra, a segunda, anda carrancuda, é a mais inteligente, que bênção! Quero lhe contar que estive na casa da sua filha caçula, que me recebeu com aquele sorriso de menina, que nunca lhe acaba. Tava com um dos olhos remelado, acho que caiu um cisco, foi o que pensei, pela simplicidade como tratou, da cirurgia que lhe custou a tampa do olho. Ainda guarda a inocência e pureza de menina, parece que não se importa de carregar peso maior do que merece. Nunca lhe vi reclamar, choramingar, se mal-dizer. Não sei de onde tira tanta força, nunca vi tanta fé! Uma risada, outra risada, e eu ali, encabulado com sua coragem! Uma hora, olhei bem nos seus olhos e vi. Você estava ali, bem nos olhos dela, na sua fala, na sua força. Me senti pequeno, me senti o cisco do seu olho(...........), desculpe se molhei o papel, mas é que me lembrei do quanto Você foi inabaláve!! Nada lhe derrubava.....como eu ia dizendo, ela é a que mais se parece com VOCÊ.Voltei de lá com o coração pelo meio de saudades, ja que lhe fiz uma visita sem querer!!!