sábado, 30 de março de 2013

DIA DE SÃO JOSÉ





Terra seca de poeira

Cemitério de ossada

Esperança mutilada

Misericórdia também

De sorte ainda tem

O Dezenove de Março

A enxada e o braço

A coragem e a fé

É dia de São José

Feriado no sertão

Mulheres terço na mão

Homens tirando chapéu

Olhos virados pro céu

Suplicando um sereno

Uma chuva pelo menos

Que lhe pare de rezar

Ou que lhe possa tirar

A terra seca dos olhos

Sentir o cheiro do solo

Ver a goteira na sala

E o Santo que nunca falha

Lhe manda chuva na mente

E tudo vira semente

Num banho de alegria!!

sábado, 9 de março de 2013

SEMPRE MULHER












Tu, que sabe dos caminhos
Que ninguém ensina
Tu, que mora num sorriso
Frouxo de menina
Tu, que arrebata os homens
Ao virar mulher
Tu, que me derrama a sorte
Quando não me quer
Tu, que mata meu desejo 
Pela noite a fora
Tu, que me fere de morte
Quando vai embora
Tu, que me desmonta todo
Quando me convida
Somente tu, MULHER
Faz meus sentidos virar brasa
Faz o que quer da minha casa e
Da minha vida!!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

CORAÇÃO NAVEGADOR



Meu coração, navegador de tantos mares
Aponta a vela para o vento mais fugaz
Tão rabiscado tatuado em mil lugares
Ancora manso no batente do teu cais
 
E tu que descuidada de tão bela
Quaras ao sol esparramada na censura
E eu te trago como prenda na baixela
Meu coração a derramar-se numa jura
 
Quisera eu ter uma noite no teu leito
Ser seduzido até onde me levares
Arrebatada tatuada no meu peito
Sair contando nossa noite pelos bares
 
A onda mansa que envolve os navegantes
Percorre mares fustigada pelo vento
Embala a noite no veleiro dos amantes
Me leva embora com o sol de mar a dentro!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

MENINA MOÇA


Eu prometo ser fiel

Guardar o doce do mel

Para quem já me devora

Mil noites antes da hora

Joãozinho me olhou

Com olhos de predador

Fez um desenho de mim

Com a boca de carmim

A cobra já me rodeia

Mais bonita do que feia

Já sinto olho comprido

Roçando no meu ouvido

Por enquanto sou menina

Com carteira de vacina

Não posso compartilhar

Nem alcanço pra beijar

Quando vier o sinal

Menina passando mal

O corpo tomando jeito

Caroço virando peito
 
Quando vier o desejo

A boca sonhando beijo

Vou deixar o brigadeiro

Pela rosa no cabelo

Já me vejo debutante

Me tornando diamante

Meu diário rabiscado

Contando nosso pecado

Menina com quem será

Que Rosinha vai casar

Por ora inda não sei

Quantos encantos terei!!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

DEPOIMENTO DE UM POETA ANÔNIMO


UM POETA DESPOJADO: ZÉ ORESTES

Filho de peixe, peixinho é, já nos ensina o adágio popular. Apaixonado por esta nossa cidade de Cruz, Zé Orestes, radicado em São Paulo, desde quando pra lá, a exemplo de tantos nordestinos, seguiu em busca de melhores tempos, e conseguiu-o. 

Teimando contra os reveses próprios de uma terra que não deixa de ser a cada dia estranha pela absorção de tantas raças e culturas, bacharelou-se em direito e prestou concurso público logrando aprovação. Hoje, depois de tantos anos, aguarda ansioso os louros da aposentadoria... merecida aposentadoria.

Filho do Mestre Zeca Muniz, maior expoente destas bandas de cá na arte da expressão maior da alma, a poesia, Zé Orestes é o que se pode definir como um poeta sui generis: ele tem o dom de dar nós nas palavras que enlaçam o leitor. A forma despojada com que escreve somente se compara ao seu estilo de vida. Aberto. Receptivo. Simples...

Indubitavelmente, escrever é um estado de espírito, e poucos são os que conheço que tem este estado tão elevado e ao mesmo tempo tão humilde. Certamente deve ser por isso que de seu manancial inesgotável brota tantas maravilhas literárias. O homem está sempre de bem com o mundo. 

Ainda não mais do que há um mês, no mercado público daqui de Cruz, vi-o com aquele seu estereótipo característico: chinelão, calças largas, chapéu e blusa de seu time do coração, o Santos, e a mão sempre estendida para um forte aperto que é seguido de um afetuoso abraço. Boa gente este meu amigo, gente muito boa.

Diz-se dele, os que têm o privilégio de orbitar-lhe, sim, pois tão grande pessoa e tal qual um sol que obedece as leis físicas dos astros, tem gravidade e captura para seu raio de atração corpos celestes menores que beneficiam-se de sua luz perenemente irradiada. 

Eu fui capitado por ele, como anteriormente fui capitado por seu velho pai, uma supernova que já se extinguiu e que eternamente expande pelo universo sua radiação através da musicalidade de seus poemas. Assim também foi com Zé Orestes e sua poesia. A força de atração de sua alma transmutada nos seus versos soltos aprisionou-me na eternidade das rimas e nas costuras das palavras que somente ele sabe como fazê-las; e, como se no vácuo estivesse, o tempo não é percebido, somente a insustentabilidade da leveza de seu espírito de poeta... grande poeta.

A ti meu amigo, quem dera tivesse eu o mesmo dom que te é inato, e pudesse expor em texto todo o meu apreço e admiração não somente pelo que escreves, mas pelo exemplo de vida que verdadeiramente és. Como não sou íntimo das palavras, te exponho da forma que sei e que tanto cultivo como valor inestimável e que tem a linguagem universal: a AMIZADE que te nutro e imensamente me honra.


RESPOSTA:

Pôxa vida!!!!!!!!!!! O que poderia eu, me atrever a dizer, depois dessa magna página, dessa cachoeira de tão doces palavras? Só mesmo um grande poeta poderia discorrer com tanta fluência e zêlo. Puseste-me em estado de emoção com tanta lisonja e afeto. Por certo, não te identificastes, pela modéstia. És um sábio de letras livres e suaves que já te consagram um grande poeta da nossa cidade de Cruz. Admiro-te no estilo e na generosidade!!!

sábado, 20 de outubro de 2012

DONA RITA

Dona Rita tão bonita,
Tão faceira tão amiga,
Olhando não há quem diga,
Que não era da família.
Era a mãe e era a filha,
Do Velho Zeca Muniz,
Na hora de ser feliz,
A Rita caiu doente.
Lutou com unhas e dentes,
Até perder os cabelos,
A doença fez novelos,
Amarrou suas passadas.
Agora já bem cansada,
Não resistiu a batalha,
E a vida numa falha,
Lhe levou antes da hora.
Dona Rita vai embora,
Deixando muita saudade,
Cativou a amizade,
De gente que não é sua.
Foi de mudança pra lua,
Dar de comer às estrelas!!!


domingo, 26 de agosto de 2012

O MENINO E A RAPOSA

Prantá roça de criá calo, espinhaço inté o chão, pissuir as criação, a dispois raposa fazê banquete? Uma ova! Era seu pai praguejando enquanto oleava a velha espingarda de carregar pela boca. Nunca vira seu pai tão enfezado. Parecia mordido de raposa. Mergulhou a caneca no pote, lavou o rosto e dirigiu-se ainda sonolento para a mesa do café. - Bença mãe. - Deus te Bençoe! Teu pai tá espritado de raiva. O galinheiro tá que é pena. As pegada é de raposa. - Eita, será que cumeu a Maricota? Ainda onte contei os bicho. Pra mais de cem. Fora os pinto. Lembrou-se de Maricota, ressuscitada debaixo da cuia, muito fraquinha, salva no pirão de leite com farinha. Imaginou seu pescoço franzino de frangota, entre os dentes afiados da raposa. E se ela tivesse dormido trepada? Raposa não sobe no pé de pau. Já cruzava o terreiro em direção ao galinheiro, quando seu pai lhe interrompe o pensamento. Vá num pé e vorte nouto, na budega do seu Leocádio comprá as munição. Na minha sombra raposa num faiz arrancho. A raposa estava encalacrada. Tinha pena do bicho bruto que age por instinto, apenas pra matar a fome. Se pudesse deixaria um aviso pra ela no galinheiro. Um frasco de chumbo, espoleta, pólvora pra dez carrego. - Seu Leocádio, tem chumbo que num é chumbo? Que bate mais num fura? Seu Leocádio lambeu o papel, enrolou o pé duro..... - Oia seu minino, já escuitei falá num tá de festim, mai eu memo nunca vi não. Diga seu pai que esse eu num tenho não. - Não seu Leocádio, ele nem queria desse não. Tinha que fazer alguma coisa pra salvar a raposa daquela emboscada. Pediu a seu pai pra lhe deixar fazer o carrego, assim colocaria só bucha e pólvora, tiro de festim. Pedido negado. Bota porva, bota bucha, bota chumbo e outa bucha. Acho qué assim. Nem me alembro a derradera vez que atirei num bicho. Acho que foi num quexada que tava acabano cum miaral. Ô foi na pintada? A pobre raposa estava mesmo com as horas contadas. Foi zinindo pra escola, se aconselhar com sua amiga Chiquinha. Só ela e mais ninguém na sua idade, tinha tutano de homem. Chiquinha era a brigona da escola. Todo menino tinha medo dela. Mas, pra sua sorte, era sua amiga e confidente. - Chiquinha, meu pai tá armado até os dente. - Questão de terra? - Raposa mesmo. Após confabularem durante toda a aula, Chiquinha lhe empresta sua arapuca gigante, que logo foi armada na trilha das pegadas. Agora era só rezar pra raposa passar por ali naquela noite. E mais um pequeno detalhe, que foi lembrado pelo menino. - Chiquinha, arapuca sem galinha não pega raposa. - Será que ela se importa de comer galinha lá de casa? Os dois rolaram na terra numa grande gargalhada! A ansiedade não lhe deixou dormir naquela noite. Ao chegar na armadilha de manhã cedinho, Chiquinha, mais astuta que a raposa, lá estava acocorada contemplando sua presa. Fizeram uma grande gaiola de varas amarradas de cipó. Era a nova casa da raposa, que para tanto não foi consultada. Os dias foram passando e o segredo dos dois aumentando. Já passava de dez galinhas, suas cumplicidades. Já estava ficando perigosa a brincadeira. Um tiro pela culatra, com perdão do trocadilho, lhes custaria uma bela surra de cipó. Numa noite chuvosa e fria, o homem volta da tocaia todo molhado, tal qual a raposa na gaiola. O menino que ainda não dormira, preocupado com o desfecho da sua trama, escuta a conversa dos pais. - Tenho cá cumigo que ela me espia inté eu sair. Animá cum fome nem bebe água, amoitado. Tu tá contano essis bicho? Namemente tão amiudano. - Tu sabe que me atrapaio na conta, quando elas se mexe. - Vai vê que a bicha inté já se mudô da redondeza, e eu aqui me fazendo de besta. E esse minino que num me ajuda mais em nada, agora é unha e carne cum a menina do cumpade Chico. Passados dias, seu pai deu a raposa por morta, após Chiquinha dar falsa notícia de uma nuvem de urubu lá pelas suas terras. Meu pai não deu falta de nenhum bicho, só pode ser ela, conclui a menina. A raposa ainda comeu muitas galinhas. De sorte, seu pai não sabia contar. Adotada com nome de Maricota, a raposa virou animal de estimação. Tempos depois, na escola..... - Meu pai vai mudar de criação, diz que vai criar porco. Bicho maior. - Tem arapuca pra onça? Pergunta Chiquinha com um sorriso maroto!