domingo, 11 de junho de 2017

A PRESSA É DO RELÓGIO, NÃO É MINHA!






                         







O homem nasce com tudo por fazer
Trabalha duro e fica independente
Quando fica sabido, experiente
Já se encontra na hora de morrer
É um troço difícil de entender
Essa vida às vezes tão mesquinha
Não me queixo de coisas que não tinha
Acho até que um dia, foi pior
Mas, se o tempo parasse era melhor
A pressa é do relógio, não é minha!
                        
O ponteiro da hora me consome
O minuto não para de correr
O segundo se põe a me roer
Só me fica a letra do meu nome
Fora isso, no fim tudo se some
Só me sobra o sessado da farinha
Os parentes me levam pra casinha
Que parece um inferno de calor
Não me venha com pressa, por favor
A pressa é do relógio, não é minha!               
                    
O relógio é ferrugem roedeira
É trem desgovernado que não para
É a ferida braba que não sara
É um despencar da ribanceira
É o fogo queimando a capoeira
Devorando com tudo que eu tinha
É pra terra que tudo se encaminha
Nem precisa pintar o seu cabelo
Quando a morte vem não tem apelo
A pressa é do relógio, não é minha!
                      
Meu relógio tem sido camarada
Me gastou muito menos que devia
Me acorda tocando melodia
Pra depois me dizer que não é nada
Me faz levar o lixo na calçada
E quando vejo, engordo na cozinha
Pouca vida é tão boa quanto a minha
Pouca coisa me põe aperriado
Se me lembro, estou aposentado
A pressa é do relógio, não é minha!
                     
Se o vento soprar devagarinho
Posso ficar mais tempo no cavalo
Já estou reduzindo meu embalo
Pra colher mais flores no caminho
A ponta afiada do espinho
Ameniza conforme se caminha
Já deixei meu chicote quando vinha
As esporas, doei para o museu
Meu cavalo sabe tanto quanto eu
A pressa é do relógio, não é minha!
                     
Compromisso qualquer já me enfada
Não me chame se for pra trabalhar
Quero o dia e a noite pra rimar
O que levo da vida não é nada
Meu cavalo cochila na ramada
Garantida que foi minha sardinha
Hoje conto com mais do que eu tinha
Comparando o que tive no passado
E o tempo ficando do meu lado
A pressa é do relógio, não é minha! 
                  
Hoje tenho o sossego merecido
Que gastei minha vida na espera
Só preciso da sombra da tapera
Do quinhão que obtive na jornada
Não é muito, mas sobra pra mesada
Se um filho tocar a campainha
Inda dá pro feijão e pra farinha
Pra encher a barriga todo dia
Sexta-feira inda tem a boemia
A pressa é do relógio, não é minha!
                  
Não me pode faltar a minha Brahma
Que rebate feliz a minha sede
Só separo da cama para a rede
Quando deixo a rede vou pra cama
Isso já atrapalha minha fama
Já escuto na rua, picuinha
Me acordo no canto da rolinha
Entre as folhas febris dos cajueiros
Inda quero ficar muitos janeiros
A pressa é do relógio, não é minha! 
                  
Não quero nada mais do que já tenho
Não quero avião nem bangalô
Só levo minha alma, quando for
Riqueza pra deixar, não faço empenho
Só trago corpo e alma, quando venho
Quando volto, só levo ladainha
Um caixão que me serve de bainha
Pra não ser carcomido pela terra
Se é assim que tudo se encerra
A pressa é do relógio, não é minha!
                      
Tenho um JEEP de usucapião
Que me leva na porta do mercado
O Gerôncio prepara meu grolado
Não dispenso o café do barracão
Jogo dez no azar e dou pro cão
Todo dia eu faço uma fezinha
Se não tô no Carlão numa prosinha
É que já fui parar no Lingapleza
Balançando o tucum, chapéu na mesa
A pressa é do relógio, não é minha! 
                   
Se você tá pensando que demora
Pode ir muito antes do que eu
O homem não é peça de museu
Quando chega seu dia, vai embora
O relógio já conta sua hora
Não preciso falar nas entrelinhas
Sua sina é parar na capelinha
Os parentes chorando de saudade
Pra morar na cozinha da cidade
A pressa é do relógio, não é minha!
                   
Entra ano, sai ano e eu faceiro
Não podia querer coisa melhor
Quando lembro que um dia viro pó
Boto olho no tempo do ponteiro
Cada dia ele corre mais ligeiro
Vai por fim engolindo a minha linha
Só não quero me internar na camarinha
E acordar tão somente pra cuspir
Se é pra ser assim, prefiro ir
Tira a pressa do relógio e põe a minha!!!










domingo, 14 de agosto de 2016

MEU PAI VALENTE





 

Meu pai um dia
Foi comprar um aguardente
Um espelho quatro pente
Pras minina pentiar
 
E deu de cara
Com um sargento impertinente
Que mandou sair da frente
Num ta vendo ele passar
 
Chegou em casa
Com o sol ainda quente
Lhe faltava quatro dente
Oito dia sem mascar
 
Mamãe lhe disse
Onde foi o acidente
Se morrera muita gente
Quanto tinha que rezar
 
Nada de grave
Discutiu com um agente
Se atracaram brevemente
Não queria se sujar
 
No outro dia
Já subero diferente
Que caiu inconsciente
O sargento Galamar
 
Que disafôro
Agredir um combatente
Com medalha de tenente
Que cansou de guerriar
 
O delegado
Convocou seu assistente
Relatou o incidente
Pro juiz da capitá
 
Na prefeitura
Já ligaro pro servente
Suspender o expediente
Pro prefeito dispachar
 
Um desacato
Fadigar um homem crente
Cidadão obediente
Com um nome pra zelar
 
Não acredito
Que meu pai, um inocente
Se tornou um depoente
Dum sargento marruá
 
Quem ele pensa
Um homem bom e decente
Lhe fazer de paciente
O seus dente lhe quebrar
 
Inconformado
Com a quebra de patente
Reuniu os combatente
Pro sargento expulsar
 
O delegado
Nesse dia esteve ausente
Viajou do continente
Pra pueira esfriar
 
Do que me lembro
Tenho um primo escrevente
Que é muito influente
No sertão do Quixadá
 
Meu pai me disse
Quando era adolescente
Tinha fama de valente
Não sabia o que é brigar
 
Porque um dia
Se valeu de um doente
Derrotou uma serpente
Que pariu num caçuá
 
Agora veja
A garrafa era somente
Pra fazer um caldo quente
Na quermesse do lugar
 
Tem cabimento
Um sargento saliente
Confiscar o aguardente
Do quentão do arraiá
 
Quando acordei
O meu pai já foi embora
Coração ainda chora
Que nem posso lhe contar!!!!





 


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

CARITÓ DE REVESTRÉS

 
 
Na minha roça não chove
Nem um caroço de chuva
Nem solteira nem viúva
Nem moça de caritó
Quem aceita um arigó
Que pissui quatro pataca
Um jumento e uma vaca
Pouco geno no paiol
Uma linha com anzol
Numa vara de pescar
Um jogo de caçuá
Uma galinha peróca
Um caco de tapioca
Uma saca de feijão
Um calado coração
Isborrotado de dor
Caricido dum amor
Que encha minha cumbuca
Que caia na arapuca
Que armei pra lhe pegar
Faço plano de casar
Fazer bastante minino
Se num for do meu distino
Pelo meno a muié
Pra fazer uns cafuné
Nas hora das liberdade
Me tirar da virgindade
Que tanto me aperrêa
Em noite de lua cheia
Dá suadêra nos pé
Num pisei num cabaré
Meu querido Santo Antônio
Me tire desse medonho
Caritó de revestrés!!!

sábado, 9 de julho de 2016

GONZAGA 90 ANOS






 
 
Meu velho que bem te quero
 
No teu braço me criei

Se fui ingrata não sei

Só tu me podes dizer

 
Tens ainda por fazer

Não sei de ti a metade

Te empresto minha idade

Tu me dá o teu saber

 
Venho aqui te devolver

Um punhado do carinho

Que no tempo de menina

Tu derramastes em mim

 
Queria vida sem fim

Pra te tornar imortal

Te fazer de catedral

Meu amor meu horizonte


Foste tu a minha fonte

Onde matei minha sede

Minha casa de parede

A semente do plantio

 
Meu rio, meu vasto rio

De suave correnteza

Bebi a delicadeza

Das tuas águas serenas

 
Me aqueci nas tuas penas

Me abriguei na tua asa

E na fundura mais rasa

Tu me davas de beber

 
Por fim eu quero dizer

De todo meu bem-querer

E se um dia eu renascer

Há de ser na tua casa!!!

quarta-feira, 25 de maio de 2016

REZA BOA DE SINHÁ





 
 
 
 
 
 
 
 
 
REZA BOA DE SINHÁ

 
Botei a dor num recado

Mandei menino levar

Vá pegar os seus “calçado”

Vá na casa de Sinhá


Diz que tô adoentado

Não me contenho de dor

Diz que foi um machucado

Que fulana me “butô”

 
Diga que padeço louco

Por causa daquela ingrata

Que já estive por pouco

Que ela ainda me mata

 
Fiquei de punho cerrado

Apertando o patuá

Assim de olhos fechado

Até menino voltar

 
Me tranquei na camarinha

Me cobri de oração

Me benza de vassourinha

Me livre da injeção

 
Viajei no pensamento

Para a casa de Sinhá

Veio a cura pelo vento

Eu aqui ela aculá

 
Me benzeu de manhazinha

Me curei no mesmo dia

Saravá pra Sinhazinha

Pai nosso ave Maria

 
Meu bem-querer comovido

Ta resolvida voltar

Me butou de preferido

Pensa inté em se casar

 
Menino vá no terreiro

Pegue milho vá chamar

Escolha a melhor galinha

Dispene para Sinhá

 
Sinhá me pôs de namoro

Com quem jurava que não

Tornai em dedo de ouro

Os dedo da sua mão!!!

 

 

 

MISTURA DE FÉ

















MISTURA DE FÉ


Eu te benzo eu te curo

Pelo milagre da fé

Sou fumaça de bazé

Na boca da benzedeira

Sou mãos da velha Parteira

Que trás a vida pra fora

Sou reza fora de hora

Pra quem chora no apuro

Sou a vela no escuro

Na força do pensamento

Sou remédio pelo vento

Na fechadura do corte

Sou pedra que tira morte

Da goela da serpente

Sou reza de penitente

Sou a folha de benzer

Sou agulha de coser

Costurando o patuá

Sou terreiro de dançar

Sou reza de ladainha

Sou galho de vassourinha

Fazendo sinal da cruz

Sou farto banho de luz

Conforme o espiritismo

Sou a água do batismo

Na fronte do batizado

Sou culto discriminado

Que fica nos arredores

Sou reclamo dos menores

Sou o grande ajoelhado

Sou enfim, o misturado

Da fé de quem acredita

Sou católico sou espírita

Benzedeira e rezador

Sou crença de toda cor

Sou amuleto seguro

Eu te benzo eu te curo

Em nome do criador!!!


(Orestes Albuquerque)  

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

LUA CHEIA











Serei de ti, até à lua cheia
Dividirei contigo meu destino
Te contarei meu tempo de menino
Te deixarei pulsar na minha veia
 
De ti, farei retrato do que sou
Pra te olhar, quando quiser me ver
E, quando a lua reaparecer
La estarei, de riso sedutor

Posso fingir, se me quiser fingido
Posso contar do sonho que não tive
Posso morrer no sonho, inclusive
Só pra te ver, de coração partido

Terei de ti, o braço e o abraço
Da tua mão, amigarei a minha
A ti, darei reinado de rainha
Amarrarei a vida no teu passo

E, bendirei de ti a toda hora
Embora seja tudo fantasia
Meu olho de poeta te vigia
E minha alma tola te adora!