quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

ZÉCATINGA & VAGAREZA

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ZÉCATINGA e VAGAREZA
                    I  (VAGAREZA)
O meu nome é Vagareza
Tenho um amigo do peito
Zécatinga foi eleito
A catinga do planeta
Estralo de caçulêta
Ligeiro que nem a bala
Pulou de dentro da mala
No dia que foi nascido
Não sei, mas deve ter sido
Aborto da natureza
                II
As coisas do Zécatinga
São tudo fora de rumo
Não larga a masca de fumo
Por causa das muriçoca
Diz que gosta da Maroca
Que mora do outro lado
Mas tem aquele cunhado
Com a sua esquisitice
Pelo jeito que ele disse
Só pode ser baitinga
              III
É o veneno da cobra
Quando dá uma cuspida
Acabou com uma vida
Um dia de madrugada
Sapecou a machadada
No vulto dentro do muro
Como tava muito escuro
Só foi ver no outro dia
Velório de romaria
Coitada da sua sogra
                IV
Apesar de ser zanôi
Ele é bom de pontaria
Sem querer um certo dia
Entrou numa confusão
Ele, na sua razão
Não respeitou a patente
O povo ali presente
Ficou de queixo caído
O guarda foi atingido
No mei da bila do oi
                V
Namorou por muitos anos
Serafina seu amor
Foi quando me convidou
Pra conhecer o pai dela
Só tinha beijado ela
Assim na correspondência
Na hora da recompensa
Uma moça com dordói
Mal podia abrir o zói
Foi doído seu engano
               VI
Saiu de pano passado
Mudelito de jacu
Parecia um cururu
Pro rumo da cantoria
Já ia raiando o dia
Encontrou a Setembrina
O cheiro de criolina
Espalhou na capoeira
Já era segunda feira
Os dois ainda grudado
               VII
Perdeu todo seu dinheiro
Com uma compra de gado
Ficou um mês internado
Por causa de anemia
Depois de quarenta dias
Infezado sem comer
Eu sem nada merecer
Inda sofro na intriga
Agora você me diga
É ou não é um fulêro
              VIII
Ele nunca se atrasa
Para ver o futebol
Cheirando carne de sol
Minha mulher fica puta
Ele faz que não escuta
Tira caca do nariz
É um momento feliz
Quando ele vai embora
Inda fica meia hora
A catinga pela casa
              IX
Ele mora num casebre
Que só tem um aguidá
Nem cacimba tem por lá
Pra lavar sua catinga
Se morasse na zaninga
Tinha o rio pra nadar
Não precisava ficar
Dez dias na mesma roupa
A água tem que ser pouca
Se não lhe mata de febre
               X
Fui comer na sua casa
Foi só eu de convidado
O chão de barro pisado
Uma esteira de capim
Ele colocou pra mim
Um aguidá de traira
Uma alça de imbira
Na cumbuca de pirão
Faça cirimônia não
Traira assada na brasa
               XI
Me contou apaixonado
Que se riu pra Filomena
A menina mais pequena
Da Maria do Juá
Desse dia para cá
Filomena de mansinho
De longe corta caminho
Tem medo de assombração
Até pediu proteção
Pro filho do Delegado
                XII
Um amigo bom assim
Não se acha todo dia
De novinho não fidia
A mãe podia banhar
Difícil de aguentar
Comendo na mesma mesa
Me chama de vagareza
Porque ando devagar
Zecatinga vai contar
O quanto gosta de mim!!!
             XIII (ZÉCATINGA)
Aconteceu bem assim
Parecia um demente
Eu fugindo da enchente
Com um bode na cacunda
Vagareza de segunda
Nadava feito uma mesa
A água da correnteza
Não cobria um coelho
Ele com os cutuvelo
Atolado no capim
                XIV
Joguei o bode no rio
Pra salvar o companheiro
A água só no joelho
Nem a roupa ta molhando
Ele ali se afogando
Com priguiça de nadar
Se danou a praguejar
Quando lhe botei na beira
Pressa demais é besteira
Quanto mais quem não pediu
                XV
Pra recuperar o bode
Nadei feito condenado
Vagareza pro seu lado
Não demonstrava uma ruga
Qualquer dia a tartaruga
Passa por cima de ti
Carreira de jabuti
Ta no teu DNA
Tudo nele é devagar
Até hoje sem bigode
              XVI
Aborto da natureza
Eu sei muito bem quem é
A enchente da maré
Devolveu como refugo
Sobre um monte de sabugo
Boiando sem rumo certo
Pescador passando perto
Recolheu a encomenda
Com jeito de oferenda
La estava vagareza
              XVII
Precisou tomar um susto
Para conseguir falar
Pôs na feira pra doar
Fez um bingo na quermesse
Não achou que lhe quisesse
Levou de volta pra casa
Hoje ele criou asa
Fica falando de mim
Gosto dele mesmo assim
Embora não ache justo
              XVIII
Passei os quarenta dias
Trancado com cadiado
Só porque comprei um gado
Que ele também queria
Veja só a putaria
Que vagareza me fez
Me trancou mais de um mês
Comprou o gado primeiro
Pagou com o meu dinheiro
Prometeu que devolvia
             XIX
Zanôia é Mariquinha
A mulher que lhe pariu
Por isso caiu no rio
De onde lavava roupa
Esqueceu a coisa pouca
Fazendo não sei o quê
Quando lembrou de você
Olhando pra dois lugar
Na correnteza a boiar
A titica de galinha
             XX
Namorei uma menina
Escrevia todo mês
Foi quando chegou a vez
De falar com o pai dela
Vagareza na cancela
Ficou cagando de medo
Vou lhe contar um segredo
Que hoje muito me dói
Vagareza pôs os zói
No irmão de Serafina
            XXI
Buato de mentiroso
A machadada que dei
Se eu nunca me casei
Como matei minha sogra
Vagareza é uma cobra
Com andar de tartaruga
Uma espécie de verruga
Que a gente tem saudade
Comparo sua amizade
Com uma talba de fojo
             XXII
Vagareza certo dia
Como posso lhe contar
Inventou de namorar
Uma moça da cidade
Foi uma calamidade
Para quem não merecia
O coitado não sabia
Dos predicado da moça
Tinha um olho de louça
E era torta da bacia
               XXIII
Vagareza se atrasa
Em tudo que vai fazer
Quando senta pra comer
Os prato já tão lavado
Se firmar um combinado
Só chega no outro dia
Sua comida esfria
Enquanto pega farinha
Só pega uma galinha
Se for quebrada da asa
               XXIV
Vagareza foi levar
O dicumê no roçado
Sua mãe butou recado
Pra chegar no meio dia
Chegou já escurecia
E seu pai com malvadeza
Amarrou o vagareza
No tronco da catingueira
Amanhã que deus queira
Eu volto pra te buscar
              XXV
Nunca vi home tão mole
Para o lado de muié
A minina da Raque
Se butô pra ele só
Vagareza de pongó
Fez que nem butô repara
Merece surra de vara
Pra dexá de sê lesado
Mesmo sendo bulinado
Vagareza não se bole
               XXVI
Vagareza só pissui
Uma calça de riscado
Quando volta do roçado
Lhe pindura no cordão
Os inseto cai no chão
E sobe pelas parede
Impesteia sua rede
Acha bom é se coçar
Sua vida é balançar
Sobre um saco de gurgúi
              XXVII
Agora formô casal
Não entendi sua pressa
Parece que foi promessa
No passado de fogueira
A moça toda faceira
Por causa dessa titica
Sem querer fazer futrica
Mais já iscuto buato
Que um rasto de sapato
Foi visto no seu quintal
           XXVIII
Não entendo esse povo
Da língua desse tamanho
Parece que tomar banho
É coisa melhor que tem
A sujeira me faz bem
Pra espantar muriçoca
Depois a minha Maroca
Não reclama do meu cheiro
Se vier o chuvueiro
Eu tomo banho de novo!!
           XXIX (VAGAREZA)
Zécatinga tua asa
Já está grande demais
Não sei o quê que te faz
Achar que tão te ouvindo
Mais de hora só mentindo
Querendo me derrubar
Se eu resolver contar
O quanto tu é seboso
Urubu mais corajoso
Não voa na tua casa
            XXX
O suvaco lhe abriga
Criação de carrapato
Pensei que fosse buato
Mas pude presenciar
A camisa firviar
De aranha e percevejo
Qual mulher que dá um beijo
Num cabra fidido assim
Tu precisa dar um fim
Parar de botar lombriga
            XXXI
Tem catinga porque quer
Parece gostar do nome
Se antes de virar home
Tua mãe te dava banho
Agora desse tamanho
Morre de medo de água
O travesseiro, com mágoa
Ta nos planos de fugir
Não agüenta sentir
A catinga do seu Zé
              XXXII
Vou falar com a Noviça
Pra pedir pro Seu Vigário
Uma reza de rosário
Um pouco de água benta
Penitência de quarenta
Pai Nosso Ave Maria
Tomar banho todo dia
Como se fosse promessa
Na segunda tu começa
Teu nome saiu na Missa!!!

domingo, 28 de dezembro de 2014

AS PERNAS DA MINHA DEUSA


Moça da perna de louça

Que eu não posso pegar

Minha vida é reparar

Se te vejo pelas ruas

O sol que lhe botam nuas

Faz de mim atordoado

De olhar paralisado

Vendo arte de museu

Pilares de coliseu

Torneados no marfim

Espelho de manequim

Nos olhos de quem te vê

Um dia vou te fazer

Os postes da minha rua

Um monumento pra lua

Pra te tornares eternas

E fazer todas as pernas

Do jeito que são as tuas!!!

PADREBÉNS


Sou eu quem conta a idade

Do nosso Padre querido

De tanto tempo vivido

Sou eu a cronologia

Todo ano sou um dia

Na vida do seu Vigário

Sou o seu aniversário

Presente nos seus cabelos

Nas rugas dos cotovelos

Que não tardas perceber

Parabéns para você

Cordeiro da esperança

Cordeiro que não se cansa

De orar por todos nós

Como sou fraco de voz

Pedirei para a noviça

Que leia isto na missa

Pra todo mundo saber

Da força do bem-querer

Que reina na tua igreja

Teu dia bendito seja

Na boca do bendizer!!!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

SERENATA DO JUBILEU

 












Acorda Senhor Vigário
Raiou o cinquentenário
Queremos lhe aplaudir

É dia de Magnata
Vem ouvir a serenata
Que fizeram para ti

Interrompe a madrugada
Sai um pouco na sacada
Depois volte pra dormir

Se o Senhor não se incomoda
Vamos cantar uma moda
Para a porta se abrir

Acorda seu Valdery
Te levanta vem ouvir
A cantiga do plebeu

Se estiver acordado
Já estamos perdoados
De quebrar o sono teu

Perdoe o fora de hora
Do povo que vem de fora
Cantar no teu apogeu

Um tributo merecido
Pro nosso Padre querido
Na data do Jubileu

Acorda seu Manoel
Vem ouvir o menestrel
Na modinha caipira

É coisa que não demora
Depois nós vamos embora
A seresta se retira

Aceite mais essa prenda
Em forma de oferenda
Do povo que te admira

Se não foi do seu agrado
Eu me dou por condenado
Me enforco na imbira!!!

sábado, 29 de novembro de 2014

MANOEL CAIU DO CÉU

















No ano de trinta e oito

No trinta e um derradeiro

Por pouco não é janeiro

Da folha do outro ano

Nascia ali por engano

No meio do choramingo

Entre a sexta e o domingo

Um menino especial


Um presente de Natal

Para João e Maria

Motivo de alegria

Pro festejo natalino

Seu tino já de menino

Lhe tornaria vigário

Seguiu para o seminário

Da cidade de Sobral


Depois ja na capital

Se deu a ordenação

Primeira celebração

Para seus paroquianos

Já com vinte e seis anos

Na sua terra natal

Por ordem celestial

Para nós foi enviado


Um alvoroço danado

O povo todo aflito

Pra ver o Padre bonito

Que ganhamos de presente

Nosso maior expoente

Já visto e acontecido

Homem havido e sabido

Patrimônio da cidade


Deus lhe dê longevidade

Pra cuidar do seu rebanho

Um homem com seu tamanho

Não cabe vida pequena

Tens o brilho da patena

Que reluz sobre o altar

Impossível de contar

As obras realizadas


Crianças catequizadas

As casas paroquiais

Os recantos pastorais

Escola fundamental

A radio paroquial

Conselhos e comissões

Muitas realizações

Fez obra até a canela


Fez escola fez capela

Pregou o ensinamento

Fez a obra de cimento

E a obra que não se vê

Queremos oferecer

Metade e meia do céu

Ao nosso Cônego Manoel

Nosso filho de Maria


Quem vem no último dia

Já trás consigo a demora

Nem pense de ir embora

Antes de fazer os 100

Seja um Matusalém

Diante da sua igreja

Seu nome bendito seja

Dominus vobiscum, amém!!!



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A IDADE


       
A idade é como o vento

De vagareza constante

A idade é um instante

Que passa despercebido

 

É um menino crescido

Se preparando pra vida

É explosão incontida

Na força da mocidade

 

É um pouco de saudade

Do menino já maduro

É anseio de futuro

No segundo do ponteiro

 

É tempo que vai ligeiro

Nos braços do aconchego

É um vôo de morcego

Nos arredores da vida

 

É a família crescida

È uma taça de vinho

É asa de passarinho

Voando no infinito

 

É o tempo mais bonito

Do menino já vivido

É destino já cumprido

É vida que se apaga

 

É peito livre de mágoa

No descanso merecido

Uma mão no comprimido

A outra no copo d'água!!!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A PEDRA DO CAPIM (2ª Edição)


 









A PEDRA DO CAPIM
          (2ª Edição)
Vou contar neste romance
Uma história verdadeira
Passada nos anos vinte
Depois da guerra primeira
No lugarejo Capim
Terra de Lúcio Teixeira
A história de uma pedra
Uma pedra feiticeira
                 
Dona Raimunda Nonata
Mulher de Lúcio Teixeira
Um braço dos Vasconcelos
De família pioneira
Mandatários do Capim
Terras de carnaubeiras

Janeiro de vinte e três
A mão ficou sem a luva
Faleceu Lúcio Teixeira
Raimunda ficou viúva
A falta do companheiro
Promete tempo de chuva
Certo dia um mascate
Por alcunha de Alfredo
Arranchado em sua casa
Lhe vendia um segredo
Era a pedra do mistério
Que moça não põe o dedo
                
Escute Dona Raimunda
Você vai me prometer
Só depois da menopausa
A mulher pode lhe ver
Se lhe quebrar o encanto
Você vai se arrepender
   
É coisa muito miúda
Muito fácil de guardar
Não mostre na claridade
Não deixe ninguém olhar
Só retire do baú
Na hora que for usar
              
A pedra tira veneno
De mordida e ferroada
Seja de bicho pequeno
Seja de cobra afamada
Aonde tiver veneno
A pedra fica grudada

A Senhora me conhece
Disse o velho comboieiro
Se não for como lhe digo
Me arrancho no terreiro
Aceito a pedra de volta
E lhe devolvo o dinheiro

Alfredo passa remédio
É Doutor na freguesia
Sua receita não falha
Curandeiro de valia
No fio do seu bigode
Dona Raimunda confia
Custa cinqüenta mil réis
Mas é coisa de primeira
Dona Raimunda vendeu
Duas arrobas de cera
É muita palha cortada
É muita carnaubeira

Por capricho do destino
Numa noite sem luar
A filha Ana Joaquina
Veio a pedra inaugurar
Jararaca no escuro
Cravou no seu calcanhar
 
A notícia dessa pedra
Se espalhou na região
Sua fama foi crescendo
Qual bando de lampião
Até a cobra já sabe
Da pedra da salvação

Ninguém sabe da origem
Nem sua composição
É um completo mistério
Ninguém dá definição
Se é prata se é ouro
Se é pedra se é torrão
            
Parece do outro mundo
Parece dona da força
Parece escama de peixe
Parece unha de moça
Parece casca de ovo
Parece caco de louça

Todo bicho venenoso
Se curva diante dela
Uma pedra poderosa
Ta sempre de sentinela
Na hora de dar o bote
A cobra já pensa nela
 
A pedra perdeu a conta
Das pessoas que salvou
Gente já desenganada
Carregados em andor
Gente pobre gente rica
Gente contra e a favor

Um corpo desfalecido
Trazido de animal
Cruzado sobre o cavalo
Em estado terminal
Caiu em cima do bote
Na rudia da Coral
O homem já não falava
Não dava sinal de vida
A pedra ficou grudada
Feito casca de ferida
O homem saiu andando
A pedra no chão caída
            
Outro dia na vazante
Apanhando algodão
Uma cobra agarrou
O dedo do meu irmão
Ele balançava o pé
Dava lapada no chão
Fomos correndo pra casa
Envenenados de medo
Antonia de Vasconcelos
Examinou o seu dedo
Corre pro Jenipapeiro
Veneno não é brinquedo

Chegamos no João Lúcio
Eu me sentei na calçada
Esperando que a pedra
Não fosse ficar grudada
A língua tava pra fora
Da carreira da estrada
Meu irmão ainda vive
A cobra lhe enganou
Na saída já corado
Airton me segredou
É uma casca de ovo
Não derruba beija-flor
            
Tempo depois uma freira
Da banda de Pirituba
Infestada de peçonha
Não andava sem ajuda
Foi na Rural do Bureta
Levada pra Macajuba
 
Saiu de lá caminhando
Chorando de emoção
Sua cadeira de rodas
Levada pra doação
Quem rezava obrigada
Reza sem obrigação
           
Passado recentemente
Com Tânia moça bonita
Seu pé já estava roxo
Quando chegou na visita
Uma hora de veneno
Na Pedra da Dona Rita
Um pescador afamado
O Lorinho do Arpão
Disparou o seu gatilho
Um tiro de campeão
Sua mão foi espetada
Na ponta do esporão
            
O bagre quando tá chôco
Pescador não vá pescar
Sua dor era medonha
Quando voltava do mar
A cada cinco minutos
Parava pra desmaiar
 
Chegou na casa da Pedra
Desmaiado no sofá
Veneno pra oito horas
Até o dia raiar
Toda vez que me encontra
Me convida pra pescar

O menino distraído
Brincava no seu terreiro
A cobra também estava
Escondida no canteiro
Menino passou raspando
Caiu no bote certeiro

O menino deu um grito
Já caiu desfalecido
Seu corpo todo estralava
Esqueleto enrijecido
Trocado por um bazé
Era dinheiro perdido

A coral mandou veneno
Da cabeça até o pé
Passou a noite na Pedra
Com olhos de caburé
Quando amanheceu o dia
Tava tomando café
         
A moça não conhecia
A história do cordel
Sua crença não passava
Do romance no papel
Um dia foi vitimada
De um inseto cruel
            
Pôs a calça sobre a cama
Pra vestir roupa folgada
Enquanto tomava banho
A lacraia fez morada
Quando vestiu novamente
Já sentiu a ferroada
           
Nem preciso lhe dizer
Da dor que ela sofreu
O veneno do inseto
Sua perna adormeceu
A Pedra fez o trabalho
A moça se convenceu


O macaco foi criado
Na corrente no terreiro
Seu dono desavisado
Cortou o seu cajueiro
O bicho ficou irado
De modo mais traiçoeiro

A mágoa ficou guardada
Até poder se vingar
Seu dono não esperava
Que fosse lhe atacar
Cortou de uma dentada
O tendão do calcanhar
 
A perna toda do homem
Estava comprometida
Salmôra do inflamado
Escorria da ferida
A pedra só não fechou
O buraco da mordida
 
O inseto não escolhe
Aonde pode picar
Pica velho pica moça
Pica tudo quanto há
Pica lugar escondido
Que eu não posso contar

Mas é trabalho perdido
Enquanto a pedra viver
Oinseto que procure
Outra coisa pra fazer
Se levar na Dona Rita
Nem adianta morder  
A Medicina gastou
Mil anos a pesquisar
O soro antiofídico
A cobra mesmo é quem dá
Usa do próprio veneno
Pro veneno retirar
            
Quem tem a foto da cobra
Bordada no avental
Rebate o uso da pedra
Como se fosse do mal
A Pedra não se incomoda
Nem sabe quem é o tal
A Ciência acredita
No que possa comprovar
O Doutor bem que podia
Deixar a cobra picar
Eu garanto que a Pedra
Não ia discriminar
                   
O Vigário, generoso
Que ensina acreditar
Na sua sabedoria
Manda lhe recomendar
Tem uma queda por ela
Espera não precisar


Na casa da Dona Rita
Vem gente de todo canto
A pedra é venerada
Feito milagre de santo
Só não pode tirar foto
Pra não quebrar o encanto

Antigamente só ia
Quem tinha sido mordido
Hoje vai gente caída
Gente com dor de ouvido
Com ibigo estufado
Com o dedo dismintido

A cobra ultimamente
Não manda quase ninguém
Vem gente pra tirar febre
De doença que não tem
Gente  com cisco no olho
Com berruga no sedém

Todo dia tem alguém
Já virou uma rotina
Vai gente que se curava
Tomando uma aspirina
Vai gente queimar o dedo
Queimado na lamparina

A pedra hoje não dorme
Com tanta gente na porta
É gente com pé inchado
É gente da boca torta
É gente com dor na unha
A doença não importa

Dona Rita não se nega
Já se sente obrigada
Não tem dia não tem hora
Nem doença medicada
Bota pedra tira pedra
Por coisa que não é nada
   
No ano de vinte e sete
Ela foi adquirida
Lá se vão oitenta anos
E ela sempre na lida
Um dia toma veneno
No outro lambe ferida
           
A pedra não vê o sol
Nem quando muda de mão
De forma hereditária
Se morre seu guardião
Quando vai pra outra casa
É levada no surrão
            
O parente escolhido
Recebe como herança
A pedra é transmitida
Com dote de confiança
Feliz de quem manipula
A pedra da esperança
             
Com a morte de Raimunda
Ursula ficou na missão
Depois veio Manoel
Seu terceiro guardião
De Manoel para Rita
Continua a tradição
José o filho mais velho
De Rita e Manoel
Se nada lhe aconteça
Assumirá o papel
Um pilar dos Vasconcelos
Um mandatário fiel
         
Dona Raimunda se foi
Mas deixou a sua obra
Sua pedra encantada
Já fez milagres de sobra
Só falta tirar veneno
Diretamente da cobra
          
Maria Elizabeth
Em obra já publicada
Contou a mesma história
Não lhe mudei quase nada
Apenas contei em versos
Uma história já contada
           
Sou bisneto de Raimunda
Na linhagem feminina
De Geralda veio Antonia
Sua terceira menina
A fibra dessas mulheres
Me orgulha e me fascina
                
Termina aqui meu romance
Já que tudo tem um fim
A saga dos Vasconcelos
Não pode parar em mim
Outro dia vi a pedra
A Dama do camarim
Uma jóia de herança
Da Raimunda do Capim!!!